Hoje, João tem só o dia das mães…

João diz que era toda sexta-feira à noite, não, ele acha que, na verdade, eram aos sábados após o almoço, pois, se recorda que ele parava de trabalhar as onze, mas, chegava em casa as duas/três da tarde e, então, a euforia da tristeza imperava.

João não sabe precisar a data certa, pois, é tão arraigado em sua formação, em seu cotidiano e em sua infância, que ele não sabe desde quando lembra disso.

João se lembra que já sabia como ia ser. Lembra que qualquer brinquedo ou brincadeira se tornava um refúgio, um esconderijo que os transportava dali. Ele desenvolvera uma verdadeira capacidade de se transportar daquele lugar e, aquele lugar era sua casa.

Era uma amarelinha, um esconde-esconde, um pega-pega, ele não sabe precisar ao certo, mas, eram todos estes, à tarde/noite toda, tudo o que fosse o suficiente para que eles disfarçassem/abafassem os gritos, os xingamentos, as humilhações e as vezes até agressões.

No dia seguinte, João sentia que era ensurdecedor o “silêncio”. O silêncio da decepção, da angústia, da necessidade de não se falar sobre o dia anterior, essa necessidade era tão forte que, ainda hoje, ele sente dificuldade de exteriorizar a dimensão do seu impacto.

Mas, a agredida (sua mãe) era tão forte e sua Luz era tão poderosa, que com o decorrer dos anos João percebeu que o que ele (seu pai) dizia e a forma como agia com ela, só tinha uma motivação, que era diminui-la, para que ela criasse a falsa concepção de que ele era bom demais pra ela e, na cabeça dele, assim, ela se sujeitaria a permanecer ali, sei lá, penso que era isso.

Com o passar do tempo, as sextas e sábados de João se tornaram, também, domingos, depois, as quintas, quartas, até que toda a semana passou a ser palco daquele circo de horror e as brincadeiras já não eram mais suficientes para sustentar aquele falso subterfúgio e, então, João se viu ali, lançado aos mesmos xingamentos, ameaças, agressões e a todo peso de ter que suportar que aquele que deveria lhe proteger e lhe guiar, era na verdade, quem estava assassinando diuturnamente a sua felicidade.

Imagine, você, ao mesmo tempo que João se sentia estar em sua fortaleza, ao ouvir o barulho do portão, mesmo sem saber quem era, mas, só por saber ser mais ou menos o horário que ele chegava, passava a sentir uma tristeza silenciosamente dilacerante e com efeitos paralisantes.

Veja, sua casa, que deveria ser a sua fortaleza, é constantemente tomada pelo pânico e desespero, por atos daquele que era para ser o seu herói e que João cresceu ouvindo que ele seria, ou que deveria ser, mas, na verdade, incorporava o mais terrível dos seus monstros, na verdade se tornou o mais cruel e maldito deles.

E mais uma vez ele começa, e João se abraçava a seus irmãos a distância e tentavam não dar àquilo nenhuma atenção, mas, era tão forte e venenoso, que eles se pegavam rezando, rezando e olhando pra ela e pedindo que se rebelasse ou que resistisse, mas, seu olhar lhes dizia que, mais esta vez, iria se sujeitar àquilo tudo por eles.

João se perguntava, como assim por nossa causa?! De forma alguma João pedira pra estar vivendo aquilo??!! Mas, assim como ela, a revolta de João dá lugar à permissão, então, ele permite e, mais este dia, ele a viu sendo agredida.

Nos dias seguintes às agressões mais “barulhentas” (não que estas fossem as piores, muitas das vezes as mais veladas eram as mais contundentes), João lembra da visita de vizinhos, as vezes até parentes, os quais iam atrás de notícias, mas, com suas palavras, magoavam ainda mais a vítima, porém, poucas vezes interpelavam o agressor, e quando o faziam, ou o faziam de forma velada ou pejorativa.

Joao não sabia o que fazer, nem sabia “que” ou “se” podia denunciar, nem mesmo aqueles vizinhos e parentes que os visitavam, atrás de suposta notícia, denunciavam, mas, sempre, o aconselhou a não denunciar e afirmavam em bom tom que em briga de marido e mulher não se mete a colher.

Hoje, os “Joãos” cresceram/envelheceram, não tem mais aquela Luz/Mulher Maravilha, pois esta foi assassinada, suicidou, o abandonou ou, as vezes, até a tem, mas, ela perdeu os sentidos, por não suportar anos de agressão psicológicas e físicas.

Hoje, nem João, nem seus vizinhos e parentes podem mais denunciar.

Hoje, João sabe que sua mãe foi vítima de violência doméstica e, sabe, também, que ninguém denunciou.

Hoje, João tem só o dia das mães…

Coordenador do projeto OAB vai a escola e membro do projeto OAB por ELAS
Marcos Antônio Moreira Ferraz
Formado em direito pela Uems
pós graduado em direito público pelas Fipar
Conselheiro estadual da OAB/MS

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